Existe uma ideia bastante difundida de que aprender a se amar transforma automaticamente nossa vida em algo mais leve. Como se o autoconhecimento fosse um caminho tranquilo no qual, pouco a pouco, nos tornamos mais confiantes, estabelecemos limites saudáveis e passamos a viver relações melhores. Existe verdade nisso, mas raramente se fala sobre a parte desconfortável desse processo: quando você começa a mudar a maneira como se relaciona consigo mesma, inevitavelmente muda também a maneira como permite que os outros se relacionem com você.
Durante muito tempo, talvez você tenha sido a pessoa que compreendia tudo. Aquela que evitava conflitos, aceitava desculpas rapidamente, estava sempre disponível e encontrava justificativas para comportamentos que, no fundo, machucavam. Talvez você tenha aprendido que ser uma pessoa boa significava ser paciente, generosa e compreensiva, mesmo quando isso exigia abandonar constantemente as próprias necessidades.
O problema é que, quando esse comportamento se repete durante anos, ele deixa de parecer uma escolha e passa a ser entendido pelas pessoas ao redor como parte de quem você é. Sua disponibilidade se torna uma expectativa. Sua dificuldade em dizer não se transforma em conveniência. Sua capacidade de perdoar rapidamente permite que determinados comportamentos continuem acontecendo sem consequências.
Então você começa a mudar.
Talvez não aconteça de maneira dramática. Não existe necessariamente uma grande decisão ou um momento específico em que tudo se transforma. Muitas vezes, começa com pequenos incômodos que você já não consegue ignorar. Uma conversa que antes seria esquecida continua ecoando durante dias. Uma situação que você sempre aceitou começa a parecer injusta. Você percebe que está cansada de explicar para si mesma por que determinadas pessoas agem da maneira como agem.
É nesse momento que o autoconhecimento deixa de ser apenas reflexão e começa a exigir posicionamento.
Você começa a dizer não quando não quer. Passa a questionar relações que antes mantinha apenas por hábito. Deixa de estar disponível o tempo inteiro. Aprende que compreender os motivos de alguém não significa aceitar tudo o que essa pessoa faz. Percebe que é possível amar alguém e, ainda assim, reconhecer que aquela relação não faz bem para você.
E algumas pessoas começam a se incomodar.
Não necessariamente porque você se tornou uma pessoa pior, egoísta ou difícil. Muitas vezes, elas se incomodam porque estavam acostumadas com uma versão sua que exigia muito pouco delas.
Isso acontece porque toda relação desenvolve uma espécie de equilíbrio. Cada pessoa ocupa determinado espaço, assume certos comportamentos e aprende, conscientemente ou não, até onde pode ir. Quando apenas uma das partes começa a mudar, esse equilíbrio é interrompido.
Quem estava acostumado com sua disponibilidade pode dizer que você se afastou. Quem sempre contou com o seu silêncio pode dizer que você está criando problemas. Quem se beneficiava da sua dificuldade em se posicionar pode dizer que você mudou.
E talvez você realmente tenha mudado.
A questão é entender se essa mudança representa um afastamento de quem você é ou, pela primeira vez, uma aproximação.
Nem todo desconforto significa que você está errada
Uma das partes mais difíceis de estabelecer limites é lidar com a culpa.
Mesmo quando sabemos racionalmente que determinada situação não nos faz bem, existe uma sensação desconfortável quando começamos a agir diferente. Isso acontece porque estamos rompendo comportamentos que, durante muito tempo, nos ajudaram a preservar relações.
Dizer sim evitava conflitos.
Ficar em silêncio evitava discussões.
Aceitar determinadas situações evitava o risco de perder pessoas.
Por isso, quando você começa a se posicionar, pode surgir uma sensação de que está fazendo algo errado. Como se cuidar de si mesma significasse automaticamente decepcionar alguém.
Mas existe uma pergunta importante que precisamos aprender a fazer: por que determinadas relações só permanecem tranquilas enquanto uma das pessoas precisa se abandonar para mantê-las?
Uma relação saudável pode enfrentar desconfortos, divergências e mudanças. Pessoas que realmente desejam permanecer em nossa vida podem não compreender imediatamente nossos limites, mas existe espaço para conversa, adaptação e respeito.
O problema aparece quando a relação depende exclusivamente da nossa capacidade de suportar.
Algumas pessoas conheceram apenas a versão de você que sobrevivia
Talvez você tenha passado anos tentando ser fácil de amar.
E ser fácil de amar, para muitas mulheres, significou ocupar menos espaço, pedir pouco, compreender muito e não causar problemas.
Você aprendeu a observar o ambiente antes de dizer o que pensava. Aprendeu a perceber o humor das pessoas antes de falar sobre suas necessidades. Aprendeu a escolher cuidadosamente as palavras para não parecer exagerada, sensível demais ou difícil.
Com o tempo, esse comportamento pode se tornar tão natural que você começa a confundir adaptação com personalidade.
Até que alguma coisa muda.
Você começa a perceber o cansaço.
Percebe quantas conversas evitou.
Quantas vezes disse que estava tudo bem quando não estava.
Quantas vezes aceitou menos do que precisava apenas porque tinha medo de perder alguém.
É nesse momento que algumas relações começam a mudar. Não porque você deixou de amar as pessoas, mas porque começou a incluir a si mesma na equação.
E talvez algumas pessoas não saibam se relacionar com essa nova versão.
Elas conheciam sua tolerância, mas não seus limites.
Conheciam sua disponibilidade, mas não suas necessidades.
Conheciam sua capacidade de compreender, mas nunca precisaram aprender a compreender você.
Se escolher também significa aceitar algumas perdas
Existe uma romantização perigosa sobre o amor próprio. Falamos sobre aprender a se escolher, mas raramente falamos sobre o que podemos perder quando finalmente fazemos isso.
Algumas relações vão se transformar.
Algumas pessoas vão se afastar.
Outras tentarão convencer você de que está exagerando.
Talvez você seja chamada de fria, distante ou egoísta simplesmente porque começou a fazer perguntas que nunca fazia.
Isso pode doer.
Principalmente quando percebemos que determinadas relações funcionavam melhor quando oferecíamos muito e exigíamos pouco.
Mas existe uma diferença importante entre perder alguém porque você deixou de cuidar da relação e perder alguém porque decidiu não abandonar mais a si mesma para mantê-la.
Às vezes, o afastamento apenas revela algo que já existia: aquela relação dependia de uma versão sua que estava sempre disposta a se sacrificar.
Voltar para si também é aprender a permanecer
Talvez o verdadeiro desafio do amor próprio não seja aprender a dizer não.
É conseguir permanecer ao lado da própria decisão depois de dizer.
Não correr imediatamente para consertar o desconforto.
Não pedir desculpas por ter uma necessidade.
Não voltar atrás apenas porque alguém ficou decepcionado.
Durante muito tempo, talvez você tenha aprendido a abandonar a si mesma sempre que existia o risco de perder alguém.
Agora, o processo é diferente.
Você começa a entender que pode ouvir o outro sem ignorar a si mesma. Pode reconhecer os sentimentos de alguém sem assumir responsabilidade por todos eles. Pode amar profundamente uma pessoa sem entregar a ela o direito de ultrapassar constantemente seus limites.
Isso não torna as relações mais fáceis.
Torna as relações mais verdadeiras.
Porque, quando você começa a se escolher, oferece às pessoas a oportunidade de conhecer quem você realmente é.
Não apenas a versão que concordava.
Não apenas a versão que suportava.
Não apenas a versão que estava sempre disponível.
Mas uma mulher inteira, com desejos, limites, necessidades, contradições e escolhas.
Algumas pessoas vão se incomodar com essa mudança.
Outras vão aprender a respeitá-la.
E talvez uma das maiores descobertas do autoconhecimento seja perceber que você não precisa continuar diminuindo a si mesma para descobrir quem está disposto a permanecer.
Pausa para sentir
Existe alguma relação na sua vida que só permanece tranquila porque você evita dizer o que realmente sente?
Talvez você não precise responder agora. Apenas observe quantas vezes você chama de paz aquilo que, na verdade, exige o seu silêncio.
Aprender a se escolher não significa deixar de amar as pessoas. Significa compreender que você também precisa existir dentro das relações que constrói.
E, algumas vezes, voltar para si começa justamente quando você decide parar de se abandonar para impedir que alguém vá embora.
Volte para si.
Com carinho,
Caroline
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Este é um espaço de troca entre mulheres que escolheram olhar para dentro com mais carinho, coragem e verdade.
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