Limites nas Relações - Caroline Gongra

Existe uma frase bastante repetida quando falamos sobre relações: as pessoas precisam saber respeitar nossos limites. Embora isso seja verdade, existe uma parte menos confortável dessa conversa que nem sempre estamos dispostas a encarar. Antes de esperar que alguém respeite nossos limites, precisamos aprender a reconhecê-los, comunicá-los e, principalmente, sustentá-los quando eles são ultrapassados.

Muitas mulheres passam anos vivendo situações que as incomodam sem conseguir identificar exatamente o que está errado. Sentem cansaço depois de determinadas conversas, ansiedade quando recebem mensagens de algumas pessoas, culpa ao recusar pedidos e uma sensação constante de que estão oferecendo mais do que gostariam. Ainda assim, continuam disponíveis.

"Isso acontece porque fomos ensinadas a perceber limites como atitudes contra o outro, quando, na verdade, eles são decisões sobre nós mesmas."

Dizer que você não quer conversar sobre determinado assunto, recusar um convite, pedir espaço, não responder imediatamente, interromper uma conversa desrespeitosa ou decidir não continuar uma relação são atitudes que podem gerar desconforto. O problema é que, para evitar esse desconforto, muitas vezes escolhemos suportar situações que nos machucam.

E cada vez que fazemos isso, comunicamos alguma coisa.

Quando alguém ultrapassa um limite, você se sente desrespeitada, mas permanece em silêncio, a outra pessoa pode não compreender a dimensão do que aconteceu. Quando um comportamento se repete e nada muda na dinâmica da relação, ele começa a ocupar um espaço cada vez mais natural.

"Sem perceber, ensinamos às pessoas aquilo que estamos dispostas a tolerar."

Isso não significa que somos responsáveis pelo comportamento inadequado dos outros. Cada pessoa é responsável pelas próprias escolhas. Significa apenas reconhecer que temos responsabilidade sobre as decisões que tomamos depois de perceber como determinada relação nos afeta.

Limite não é tentar controlar o comportamento de alguém

Uma das maiores confusões sobre limites acontece quando tentamos utilizá-los para determinar o que outra pessoa deve fazer.

“Você não pode falar comigo dessa maneira” pode expressar uma necessidade legítima, mas ainda depende da decisão do outro de mudar seu comportamento.

Um limite se torna mais claro quando você entende qual será a sua atitude diante daquela situação.

“Se você continuar falando comigo dessa maneira, eu vou encerrar a conversa.”

A diferença parece pequena, mas muda completamente a responsabilidade envolvida.

"Você não controla se alguém vai respeitar você. Você decide o que fará quando perceber que não está sendo respeitada."

Isso torna o processo mais difícil, porque estabelecer um limite exige muito mais do que encontrar as palavras certas. Exige disposição para agir de acordo com aquilo que você disse ser importante.

Se você afirma repetidamente que não aceita determinado comportamento, mas continua permanecendo na mesma situação sem qualquer consequência, suas palavras começam a perder força dentro da relação.

O limite existe quando você está disposta a sustentá-lo.

Por que sentimos tanta culpa quando começamos a dizer não?

Para muitas mulheres, colocar limites significa correr o risco de decepcionar alguém.

Talvez você tenha aprendido desde cedo a ser compreensiva, prestativa e disponível. Talvez tenha sido elogiada por evitar conflitos, cuidar das necessidades das pessoas ao redor e não causar problemas. Com o tempo, essas características podem se transformar em uma forma silenciosa de abandono pessoal.

Você continua dizendo sim porque não quer parecer egoísta.

Continua aceitando porque tem medo de perder alguém.

Continua disponível porque teme que as pessoas deixem de gostar de você quando perceberem que você também possui necessidades.

Por isso, quando começa a estabelecer limites, a culpa aparece.

Mas sentir culpa não significa necessariamente que você está fazendo algo errado. Às vezes, significa apenas que você está fazendo algo diferente do que sempre fez.

Se durante anos você aprendeu a priorizar o conforto dos outros, qualquer tentativa de incluir a si mesma nas próprias decisões pode parecer egoísmo.

É preciso tempo para compreender que considerar as próprias necessidades não significa ignorar as necessidades de quem está ao seu redor.

Um limite saudável não precisa ser uma ameaça

Existe também a ideia de que estabelecer limites exige grandes confrontos. Imaginamos conversas definitivas, discursos perfeitamente construídos e decisões radicais.

Na realidade, muitos limites começam de maneira simples:

“Hoje não consigo.”

“Prefiro não falar sobre isso.”

“Preciso de um tempo antes de responder.”

“Não me sinto confortável com essa situação.”

“Se a conversa continuar nesse tom, podemos falar em outro momento.”

A dificuldade não está necessariamente em encontrar palavras. Está em suportar a reação que pode vir depois delas.

Algumas pessoas vão compreender. Outras podem tentar negociar. Algumas vão demonstrar frustração. E existem aquelas que tentarão fazer você se sentir culpada por ter estabelecido um limite que antes não existia.

É nesse momento que você descobre uma diferença importante entre quem gostava da sua presença e quem gostava da sua disponibilidade sem restrições.

As pessoas podem não gostar dos seus limites e ainda assim respeitá-los

Uma relação saudável não exige que duas pessoas concordem o tempo inteiro.

Alguém pode ficar decepcionado porque você recusou um convite. Pode não compreender imediatamente uma decisão. Pode desejar mais proximidade quando você precisa de espaço.

Respeito não significa ausência de frustração. Significa reconhecer que o outro continua sendo uma pessoa inteira mesmo quando suas escolhas não correspondem às nossas expectativas.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se as pessoas gostam dos seus limites. A pergunta é: o que acontece quando você os estabelece?

Existe espaço para diálogo? Suas necessidades são consideradas? Você consegue dizer não sem ser punida emocionalmente? A pessoa tenta compreender ou transforma qualquer posicionamento seu em uma prova de que você não a ama?

A maneira como alguém reage aos seus limites revela muito sobre a qualidade daquela relação.

Você também precisa respeitar os limites que estabelece

Talvez essa seja a parte mais difícil.

Não adianta aprender a dizer não se, diante da primeira demonstração de tristeza, raiva ou afastamento, você abandona sua decisão para recuperar a tranquilidade.

Sustentar um limite significa aceitar que algumas escolhas terão consequências.

Talvez uma relação mude. Talvez alguém se afaste. Talvez você precise enfrentar conversas desconfortáveis. Talvez descubra que determinada pessoa só permanecia próxima enquanto você aceitava comportamentos que já não deseja aceitar.

Nenhuma dessas possibilidades é simples. Mas existe um custo igualmente alto em viver constantemente ultrapassando os próprios limites para preservar relações.

Aos poucos, você começa a sentir ressentimento pelas pessoas que nunca souberam que você estava cansada. Sente raiva por estar sempre disponível, embora continue dizendo sim. Espera que alguém perceba sozinho aquilo que você nunca conseguiu comunicar. E transforma o silêncio em uma tentativa de ser compreendida.

O problema é que ninguém consegue respeitar com clareza limites que você mesma continua escondendo.

Colocar limites também é permitir que as relações sejam mais verdadeiras

Existe algo profundamente honesto em permitir que as pessoas conheçam nossas necessidades.

Quando você estabelece um limite, oferece ao outro uma informação importante sobre como é possível construir uma relação com você.

Algumas pessoas vão respeitar. Outras vão precisar aprender. E algumas vão demonstrar que não estão dispostas a construir uma relação na qual você também tenha espaço.

Em todos os casos, existe clareza.

Talvez por isso colocar limites seja uma das práticas mais difíceis do amor próprio. Porque exige abandonar a tentativa de ser aceita por todos para começar a construir relações nas quais você não precise abandonar a si mesma.

Você não precisa estabelecer todos os seus limites de uma vez. Pode começar observando.

Quais situações deixam você constantemente desconfortável? Em quais relações você sente que precisa medir cada palavra? Quantas vezes você diz sim enquanto gostaria de dizer não? O que você continua aceitando apenas porque tem medo das consequências de se posicionar?

As respostas não servem para que você se culpe pelo que permitiu até aqui. Servem para mostrar onde talvez seja necessário começar a se escutar.

Pausa para sentir

Pense em uma situação que tem se repetido na sua vida e que constantemente deixa você desconfortável.

Em vez de perguntar “por que essa pessoa continua fazendo isso comigo?”, pergunte:

“O que eu preciso fazer para deixar claro que não quero mais permanecer nessa situação?”

Talvez você não possa controlar a escolha da outra pessoa. Mas pode começar a escolher o que fará diante dela.

Porque um limite não é uma parede construída para afastar todo mundo. É uma forma de deixar claro até onde uma relação pode chegar sem que você precise se abandonar para continuar nela. E aprender a se escolher também significa compreender que aquilo que você tolera repetidamente pode se tornar a maneira como as pessoas aprendem a tratar você.

Volte para si.

Com carinho,

Caroline