Intensidade vs Profundidade - Caroline Gongra

Existe uma tendência de associarmos intensidade à profundidade. Relações que provocam sentimentos fortes, longas conversas, afastamentos dolorosos e reconciliações emocionantes costumam ocupar um espaço significativo em nossa memória. Quanto mais difícil é se desligar de alguém, mais podemos acreditar que existe alguma coisa especial naquela conexão.

Talvez por isso seja tão comum permanecer durante anos em relações que nos fazem mal. Não necessariamente porque não percebemos o sofrimento envolvido, mas porque aprendemos a interpretá-lo como parte da importância daquela história.

Quando uma relação alterna momentos de proximidade intensa com períodos de insegurança, silêncio ou afastamento, começamos a viver esperando pelo próximo momento bom. Uma conversa carinhosa depois de dias de distância parece mais valiosa. Um pedido de desculpas depois de uma discussão parece mais emocionante. Um gesto de atenção inesperado ganha uma importância muito maior do que teria em uma relação estável.

Aos poucos, você pode começar a acreditar que aquela intensidade é amor.

"Mas nem tudo o que provoca sentimentos profundos constrói relações profundas. Algumas relações apenas nos mantêm emocionalmente ocupadas."

A intensidade pode esconder a falta de segurança

Uma relação saudável não precisa ser previsível em todos os momentos. Pessoas possuem inseguranças, enfrentam dificuldades, cometem erros e atravessam períodos complicados. O problema começa quando a instabilidade deixa de ser uma fase e se torna a principal característica da relação.

Você nunca sabe exatamente onde está.

Em alguns dias, sente proximidade e acredita que finalmente as coisas estão funcionando. Em outros, percebe distância, silêncio ou mudanças de comportamento que fazem você questionar tudo novamente.

Então começa a analisar mensagens, interpretar pequenas atitudes e tentar compreender o que aconteceu.

Você se pergunta se falou alguma coisa errada. Se deveria ter demonstrado menos interesse. Se está exigindo demais. Se precisa ser mais paciente.

Sem perceber, grande parte da sua energia emocional passa a ser utilizada tentando encontrar segurança em uma relação que oferece muito pouco dela.

E quanto mais insegura você se sente, mais importante cada demonstração de afeto parece.

"Existe uma diferença importante entre estar feliz com alguém e sentir alívio porque essa pessoa finalmente voltou a tratar você bem."

Quando alguém que esteve distante volta a demonstrar interesse, você sente uma sensação intensa de bem-estar. Mas talvez essa sensação não exista porque a relação está fazendo você feliz. Talvez exista porque, por alguns instantes, a ansiedade provocada pela própria relação desapareceu.

Relações profundas não precisam ser constantemente provadas

Quando existe segurança emocional, você não precisa passar o tempo inteiro tentando descobrir se a relação ainda existe.

Isso não significa ausência de dúvidas ou conflitos. Significa que existe uma base suficientemente segura para que os problemas possam ser enfrentados sem transformar cada dificuldade em uma ameaça de abandono.

Você pode dizer o que sente sem calcular todas as possíveis consequências.

Pode discordar sem acreditar que a pessoa deixará de amar você.

Pode passar algum tempo distante sem imaginar imediatamente que perdeu importância.

Pode estabelecer necessidades sem sentir que está exigindo demais.

"A profundidade de uma relação não está na quantidade de sofrimento que duas pessoas conseguem suportar juntas. Está na capacidade que possuem de construir intimidade sem que uma delas precise viver constantemente com medo de perder a outra."

Talvez isso pareça menos emocionante para quem se acostumou com relações instáveis. A tranquilidade pode ser confundida com falta de paixão. A previsibilidade pode parecer tédio. A ausência de ansiedade pode gerar a sensação de que alguma coisa está faltando.

Isso acontece porque também aprendemos a amar a partir das experiências que tivemos. Quando passamos muito tempo tentando conquistar afeto, podemos estranhar quando encontramos alguém que não exige que o amor seja constantemente conquistado.

Nem toda conexão precisa se transformar em permanência

Algumas pessoas realmente despertam algo profundo em nós.

Existem encontros que modificam nossa maneira de enxergar relacionamentos, revelam partes desconhecidas da nossa personalidade e provocam sentimentos que nunca tínhamos experimentado.

Reconhecer a importância de uma conexão, porém, não significa que precisamos permanecer nela para sempre.

Essa talvez seja uma das ideias mais difíceis de aceitar quando gostamos de alguém.

Queremos acreditar que sentimentos importantes precisam resultar em relações duradouras. Que, se existe amor, desejo, admiração ou conexão, devemos encontrar uma maneira de fazer a relação funcionar.

Mas duas pessoas podem compartilhar sentimentos verdadeiros e ainda assim não conseguir construir uma relação saudável.

Pode existir amor sem compatibilidade. Pode existir desejo sem respeito. Pode existir conexão sem disponibilidade emocional. Pode existir uma história bonita que já não possui condições de continuar.

A maturidade emocional talvez comece quando aprendemos a avaliar uma relação não apenas pelo que sentimos dentro dela, mas também pelo que ela produz em nossa vida.

Quem você se torna quando está nessa relação?

Você se sente livre para existir ou passa o tempo inteiro tentando evitar conflitos?

Você consegue cuidar da própria vida ou toda a sua energia está concentrada em compreender o comportamento da outra pessoa?

Você se sente amada ou vive esperando pela próxima demonstração de amor?

Essas perguntas podem revelar mais sobre uma relação do que a intensidade dos sentimentos envolvidos.

Você não precisa sofrer muito para provar que amou de verdade

Existe algo culturalmente sedutor nas histórias de amor difíceis. Filmes, músicas e livros frequentemente transformam sofrimento em evidência de profundidade. Quanto maior o obstáculo, mais importante parece a relação.

Na vida real, porém, permanecer constantemente in sofrimento não torna um amor mais verdadeiro.

Você não precisa suportar desrespeito para demonstrar lealdade. Não precisa esperar indefinidamente para provar paciência. Não precisa aceitar migalhas emocionais porque acredita que ninguém conhece a outra pessoa como você conhece.

Compreender as feridas de alguém não obriga você a permitir que essa pessoa continue ferindo você. É possível reconhecer a história, os traumas e as dificuldades de alguém e ainda assim concluir que você não deseja permanecer naquela relação.

Empatia não precisa significar abandono de si mesma.

Talvez o amor mais difícil de abandonar seja aquele que nunca conseguiu existir por inteiro

Algumas relações permanecem durante muito tempo em nossa memória porque nunca chegaram a se realizar completamente.

Vivemos momentos suficientes para acreditar no potencial daquela história, mas nunca tivemos estabilidade suficiente para descobrir o que ela realmente poderia ser.

Então nos apaixonamos também pela possibilidade. Pela pessoa que imaginávamos que ela poderia se tornar. Pela relação que existiria quando os problemas fossem resolvidos. Pelo futuro que parecia estar sempre próximo, mas nunca chegava.

E abandonar uma possibilidade pode ser mais difícil do que abandonar uma realidade. Porque a realidade possui acontecimentos concretos. A possibilidade pode continuar perfeita dentro da nossa imaginação.

"Você não constrói uma relação com aquilo que alguém promete ser. Você constrói com aquilo que essa pessoa consegue oferecer agora."

Esperar mudanças não é necessariamente um problema. Pessoas crescem, amadurecem e transformam comportamentos. Mas existe uma diferença entre acompanhar um processo real de mudança e permanecer indefinidamente esperando por uma versão de alguém que nunca chega.

Relações saudáveis também podem ser profundas

Talvez você tenha aprendido que amor verdadeiro precisa ser difícil. Que relações importantes exigem sacrifícios constantes. Que encontrar alguém especial significa lutar para que a história funcione independentemente das circunstâncias.

Mas talvez exista outra possibilidade.

Uma relação na qual você não precise interpretar silêncios. Na qual carinho não seja utilizado como recompensa depois de períodos de distância. Na qual conflitos possam acontecer sem ameaçar constantemente a continuidade da relação. Na qual você possa ser amada sem precisar demonstrar o tempo inteiro que merece permanecer.

Isso não significa uma relação perfeita. Significa apenas uma relação em que duas pessoas compreendem que amar também envolve responsabilidade sobre aquilo que constroem juntas.

Profundidade não é viver constantemente no limite das emoções. Às vezes, profundidade é poder descansar na presença de alguém. É saber que uma conversa difícil não destruirá tudo. É sentir que você pode continuar sendo quem é enquanto constrói uma vida ao lado de outra pessoa.

Talvez algumas relações intensas tenham ensinado você sobre desejo, perda, apego e saudade. Mas isso não significa que todas elas deveriam ter permanecido.

Algumas pessoas entram em nossa vida para revelar aquilo que precisamos aprender. Outras permanecem porque, além de sentimentos, existe disposição para construir.

Aprender a reconhecer a diferença também é uma forma de voltar para si.

Pausa para sentir

Quando você pensa nas relações mais intensas que viveu, tente lembrar não apenas do quanto você sentia. Lembre também de como você vivia.

Você se sentia segura? Conseguia ser você mesma? Existia reciprocidade ou você passava grande parte do tempo esperando?

Os momentos felizes eram parte natural da relação ou pareciam recompensas depois de longos períodos de sofrimento?

Talvez você descubra que algumas histórias foram importantes. Mas ser importante não significa necessariamente ser saudável. E reconhecer isso não diminui o que você sentiu. Apenas permite que, nas próximas relações, você não precise confundir sofrimento com profundidade para acreditar que encontrou amor.

Volte para si.

Com carinho,

Caroline